Durante muito tempo, dizer que alguma coisa parecia “da Shopee” quase funcionou como um adjetivo. Barato, curioso, provavelmente importado e, dependendo do contexto, de qualidade duvidosa. A própria popularização da plataforma no Brasil ajudou a construir essa associação, com cupons agressivos, frete subsidiado, produtos de baixo ticket e uma infinidade de itens que circulavam nas redes sociais.

Esse estigma ainda existe, mas explica cada vez menos o que a Shopee está construindo no Brasil.

Para quem acompanha marketplace de perto, dizer que a empresa se tornou relevante já não acrescenta muita coisa. A discussão mais interessante agora é entender que tipo de marketplace a Shopee está tentando se tornar e o que ainda precisa construir para encurtar a distância para o Mercado Livre.

Os investimentos recentes ajudam a responder.

Em 2026, a Shopee ampliou sua estrutura logística no país, passou a operar 26 centros de distribuição e chegou a cinco unidades de fulfillment. A empresa afirma que os pedidos processados pelo Shopee Full cresceram 15 vezes em um ano e que produtos dentro do modelo podem alcançar até cinco vezes mais pedidos. A lógica é clara: entrega mais rápida, maior participação em campanhas e mais controle sobre etapas importantes da experiência de compra.

Mas logística é só uma parte dessa mudança.

Nos últimos meses, a Shopee lançou seu programa de assinatura, ampliou iniciativas de fidelização, fechou parceria com o LATAM Pass, avançou no fulfillment e passou a disputar novas ocasiões de consumo. A liberação para que farmácias licenciadas utilizem plataformas digitais para venda e entrega de medicamentos é um exemplo especialmente simbólico: aproxima a Shopee de uma compra recorrente, funcional e muito distante da imagem de marketplace usado apenas para encontrar um produto barato.

O próprio desempenho do 8.8 ajuda a mostrar essa transformação. As vendas de eletroeletrônicos cresceram mais de 50% em relação à edição de 2025, e mais de 12 mil televisores foram vendidos em um único dia. Ao mesmo tempo, as Shopee Lives somaram mais de 33 mil transmissões, com crescimento superior a 80% nos pedidos em relação à campanha 7.7.

Isoladamente, são notícias diferentes. Em conjunto, apontam para a mesma direção: a Shopee está ampliando as razões para o consumidor entrar na plataforma.

Preço continua sendo parte importante dessa equação, mas já não parece suficiente para explicar a estratégia. A companhia quer aumentar frequência, ampliar sortimento, melhorar entrega e ganhar espaço em compras de maior valor.

Mas vale lembrar que isso não significa que a Shopee esteja próxima de ultrapassar o Mercado Livre.

De acordo com dados compartilhados pela Emarketer no Fórum ECBR 2026, o Mercado Livre representou 37,1% no total de vendas no varejo online em 2025, enquanto a Shopee teve o market share de 15%. É uma fotografia anterior aos investimentos mais recentes, mas ajuda a dimensionar a diferença: o crescimento da Shopee é relevante, porém ainda acontece a partir de uma escala muito menor.

E o Mercado Livre também continua investindo e crescendo.

Por isso, talvez seja pouco útil observar essa disputa apenas como uma corrida pela liderança. A pergunta mais interessante é quais vantagens a Shopee está tentando construir para mudar a composição do seu negócio nos próximos anos.

No Brasil, a estratégia parece combinar quatro frentes: preço competitivo para continuar atraindo consumidores, logística para melhorar experiência, ampliação de categorias para criar novas ocasiões de compra e fidelização para aumentar recorrência.

Para quem vende, a consequência não é descobrir que “a Shopee virou um canal importante”. Para operações maduras, isso já está dado.

A questão é outra: o papel da Shopee dentro da estratégia multicanal ainda é o mesmo de dois ou três anos atrás?

Uma plataforma que melhora logística, amplia fulfillment, atrai marcas maiores e começa a disputar compras mais recorrentes pode alterar a oportunidade de categorias inteiras. Isso exige olhar novamente para margem, estoque, nível de serviço, investimento promocional e venda incremental gerada pelo canal.

A Shopee parece trabalhar para que menos consumidores precisem de um cupom como motivo para abrir o aplicativo. Se conseguir transformar parte da audiência conquistada pelo preço em frequência, confiança e compras de maior valor, terá criado algo muito mais difícil de replicar. 

Com todos esses movimentos recentes do canal, fica cada vez mais claro que o termo “da Shopee” começa a carregar outro significado. Menos associado ao estigma do produto barato e mais relacionado ao potencial de vendas, alcance e relevância que a plataforma conquistou no mercado brasileiro.

Curadoria da vez: 

  • 📊 Uma pesquisa realizada pela consultoria Casa Mundo Latam identificou que o cansaço muda a relação do brasileiro com consumo, especialmente online. Veja mais aqui!

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