Em que momento vender virou a parte mais simples?

Insights do VTEX Day 2026

A gente esteve no VTEX Day 2026 e saiu de lá com a sensação que costuma ficar depois de conversas boas: nem tudo o que ouvimos era novo, mas muita coisa ajudou a organizar melhor perguntas que já estão batendo na operação de quem vende em marketplace. 

Foi um evento que fez bastante gente pensar. Não por ter apresentado uma fórmula inédita, mas porque reuniu temas que, quando colocados lado a lado, ajudam a enxergar com mais clareza o que está mudando no varejo digital, no comportamento do consumidor e no nível de maturidade exigido das marcas. 

E um dos assuntos que mais apareceu, de formas diferentes, foi a relação entre conversão e branding. 

Quando Nestlé, DPSP e iFood puxaram essa discussão, o mais interessante não foi a conclusão óbvia de que marca e resultado precisam andar juntos. Isso qualquer apresentação bem montada consegue dizer. O ponto que realmente vale guardar é outro: o consumidor já não separa essas coisas com a disciplina que as empresas ainda insistem em aplicar nos seus planejamentos. 

No exemplo da ação do IFood com a Neutrogena em pleno Carnaval de Salvador, o que estava em jogo não era apenas exposição nem apenas venda. Era contexto. A marca apareceu num ambiente em que a atenção já existia, o comportamento já estava formado e a chance de compra fazia sentido naquele momento. A descoberta e a conversão não vieram em etapas. Vieram misturadas, como a vida real costuma ser. 

Para quem vende em marketplace, isso merece uma leitura mais cuidadosa. O canal não serve apenas para capturar demanda. Ele também ajuda a moldar percepção, preferência e lembrança. E isso não acontece só com grandes marcas e grandes verbas. A pergunta útil para o seller não é só imaginar o que ele faria com orçamento infinito, mas entender como pode usar melhor o contexto que já existe a seu favor, com mais inteligência do que barulho. 

Essa conversa sobre marca ficou ainda mais interessante quando começou a encostar em outra frente: a forma como as pessoas querem interagir. Em vários momentos do evento apareceu a ideia de que a IA está deixando de ser vista como um recurso periférico e está começando a ocupar um lugar mais central na operação. Mas, no meio desse tema, um detalhe chamou mais atenção do que o discurso genérico sobre tecnologia: voz. 

Não só voz como comando. Voz como interface. Voz como experiência. Voz como identidade. 

Pode parecer abstrato à primeira vista, mas não é. O consumidor brasileiro já resolveu uma parte dessa equação sozinho. A quantidade de áudios que trocamos no WhatsApp mostra uma preferência clara por interações mais rápidas, diretas e naturais. Quando a necessidade aperta, ninguém quer navegar por dez etapas. Quer resolver. E resolver, nesse caso, passa por conversar de um jeito mais simples. 

Isso ajuda a entender por que a discussão sobre agentes de IA por voz começa a ganhar espaço. Não porque seja a nova moda do momento, mas porque existe comportamento real sustentando essa direção. E, para as marcas, isso abre uma questão que vai muito além da tecnologia disponível: se a sua marca falasse, como ela seria percebida? Apressada, burocrática, fria, acolhedora, objetiva, com sotaque? Em algum momento, esse tipo de escolha não é um detalhe do time de marketing, mas sim do posicionamentoda marca. 

Na mesma linha de uma relação mais direta com o consumidor, o live commerce apareceu menos como novidade e mais como sinal de maturidade de um formato que muita gente ainda observa com distância. O ponto mais interessante ali não foi a ideia de vender ao vivo. Foi entender por que certas lives funcionam e outras não. E a resposta estava menos na produção do que na proximidade. 

O que engaja não é a estética impecável. É a sensação de presença e pertencimento.  As pessoas querem sentir que aquilo é para elas, e simplicidade, às vezes, é parte de uma estratégia sofisticada É alguém mostrando, respondendo, improvisando, reagindo, tirando dúvida em tempo real, quase como quem atende no balcão — com a diferença de que agora essa conversa acontece diante de centenas ou milhares de pessoas ao mesmo tempo. Não por acaso, as referências mais fortes passam por espontaneidade, senso de urgência, demonstração real de produto e participação do público. 

No fundo, voz e live commerce encostam no mesmo ponto: marcas que conseguem reduzir distância constroem relações mais fortes. E isso vale muito para sellers que já passaram da fase de simplesmente listar produto e disputar preço. Quando a operação cresce, a forma como a marca se apresenta e se relaciona começa a pesar mais do que muitos gostariam de admitir. 

Talvez por isso a provocação do Neil Patel tenha sido uma das mais úteis do evento. Enquanto muita gente ainda está concentrada em aparecer melhor no Google, ele chamou atenção para o que é mais importante agora: aparecer nas respostas geradas por IA. E o que torna esse tema interessante é justamente o fato de ele não ser resolvido com truques rápidos. 

A marca passa a ganhar espaço nesses ambientes quando existe clareza sobre quem ela é, consistência entre canais, dados organizados, reputação distribuída e sinais externos suficientes para que a IA entenda que ali existe autoridade de verdade. Em outras palavras: não basta existir. É preciso ser legível. 

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes para quem vende em marketplace e quer construir marca ao mesmo tempo. A presença digital começa a depender menos de volume e mais de coerência. Se o nome muda de um canal para outro, se a descrição não ajuda, se a reputação está espalhada sem consistência, se ninguém relevante te cita, você vai ficando invisível justamente nos ambientes que começam a mediar a descoberta. 

Outro insight valioso veio de fora do varejo, e talvez por isso mesmo tenha sido tão útil. Quando apareceu a história da Netflix comprando briga com Hollywood e apostando em conteúdos coreanos, turcos e britânicos, o que estava sendo mostrado não era apenas uma mudança na indústria do entretenimento. Era a forma como cultura prepara mercado. 

O público brasileiro passou a consumir essas narrativas, essas estéticas, essas referências. Depois disso, ver marcas desses países entrando no Brasil deixou de parecer estranho. No caso da beleza, isso é muito visível. Marcas coreanas não surgiram do nada na cabeça do consumidor brasileiro. Elas foram chegando junto com repertório, desejo e familiaridade. 

Esse movimento interessa muito ao seller brasileiro porque ele amplia a noção de concorrência. Nem sempre a ameaça está no competidor que já vende o mesmo produto que você dentro do mesmo canal. Às vezes, ela está nas mudanças culturais que começam longe da prateleira, mas que alteram o que o consumidor valoriza, deseja e reconhece como referência. Quem acompanha só o varejo costuma enxergar tarde demais. 

E aí a conversa começa a ganhar uma camada mais emocional, que apareceu com bastante força quando Decathlon, Converse e MAC falaram menos sobre produto e mais sobre o impacto que querem deixar no mundo. A Decathlon falou de autonomia por meio do esporte. A Converse, de expressão genuína. A MAC, de autoestima, inclusão e identidade. Nenhuma delas parece obcecada apenas em vender a próxima unidade. Elas estão interessadas no que a marca representa ao longo do tempo. 

Esse tipo de reflexão costuma parecer distante para muita operação de marketplace, principalmente quando a rotina está tomada por preço, estoque, SLA e margem. Mas ignorar essa dimensão tem custo. Porque, quando todos os canais viram apenas lugares para empurrar produto, a marca perde densidade. E quando perde densidade, passa a competir com menos defesas. 

Talvez a história mais simbólica de todo o evento tenha vindo justamente desse lado mais humano. John Mackey, do Whole Foods, contou que chegou a dormir dentro da loja para entender melhor o cliente. É difícil ouvir isso sem fazer um contraste com a distância que muitas empresas criaram em relação a quem compra. Não porque faltem dashboards, pesquisas ou indicadores. Mas porque sobram mediações. 

Dormir dentro da loja não é um método replicável. Mas a lógica por trás disso é poderosa. Ele queria observar o ritmo, perceber comportamento, sentir a operação, enxergar aquilo que uma pesquisa estruturada nem sempre captura. Existe aí um tipo de compromisso com o cliente que vai além da coleta de opinião. É quase uma decisão de convivência. 

Quando esse fio puxa, ele leva direto para cultura e liderança. E esse foi outro bloco do VTEX Day que vale guardar com mais calma. Paola Carosella falou sobre caos, erro e decisão em tempo real de um jeito muito mais honesto do que boa parte do discurso corporativo costuma permitir. Erro não apareceu como exceção embaraçosa. Apareceu como parte inevitável de qualquer operação viva. 

Isso conversa muito com o que Fred Trajano e Fábio Coelho trouxeram quando falaram de dados, IA e tomada de decisão. Existe um entusiasmo compreensível em torno da capacidade de analisar mais informação, automatizar mais rotinas e acelerar respostas. Mas a utilidade disso depende da qualidade da estrutura que sustenta a operação. Dado demais em ambiente bagunçado não gera inteligência. Gera ruído. 

Talvez por isso um dos pontos mais interessantes do painel tenha sido a defesa da intuição — não como chute, não como improviso vazio, mas como leitura construída por repertório, contexto e clareza. Há decisões que não nascem de uma planilha pronta. Elas exigem convicção suficiente para agir antes de todo mundo concordar. Só que essa convicção não brota no caos. Ela depende de uma base minimamente organizada. 

É aqui que tudo começa a se juntar de novo. Conversão e branding. Voz, live commerce e presença. Curiosidade sobre o que está acontecendo fora do varejo. Marca como legado. Cliente como convivência real, e não apenas como métrica. Cultura e liderança como sustentação da execução. Nada disso funciona bem quando a operação está fragmentada. 

E esse é um ponto importante para o perfil de seller com quem a ANYTOOLS conversa. Não estamos falando de quem ainda está tentando entender o básico da venda em marketplace. Estamos falando de operações que cresceram, ganharam complexidade e agora precisam de mais coordenação para sustentar o próximo salto. Sellers que se preocupam com marca, margem, reputação, eficiência e consistência ao mesmo tempo. 

Nesse nível, a operação precisa rodar redonda para que a estratégia tenha espaço de existir. Não adianta querer construir presença de marca, melhorar experiência, responder rápido, ajustar preço, manter competitividade e cuidar do financeiro se cada parte do negócio trabalha sozinha, com ferramentas desconectadas e leitura parcial do que está acontecendo. 

É nesse espaço que o ANYTOOLS faz sentido: como um ecossistema de soluções projetado para sellers que querem crescer nos marketplaces sem perder controle da operação no processo. Para quem quer ter liberdade de pensar posicionamento, comunicação, experiência e expansão sem viver apagando incêndio no básico. O próximo passo necessário (que já deveria ser realidade) só é possível se a base estiver resolvida, contemplando a jornada completa de quem opera em e-commerce 

No fim, esse talvez tenha sido o principal saldo do VTEX Day para quem olha o mercado com seriedade. O desafio já não está em descobrir o que importa. Em grande parte, isso está posto. O desafio está em conseguir conectar tudo isso dentro da operação, com consistência suficiente para crescer sem desmontar a própria base no caminho. 

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