Quem passou pelos corredores do Fórum E-commerce Brasil provavelmente saiu com a mesma impressão: nunca se falou tanto sobre inteligência artificial.

Ela apareceu na precificação, na construção de catálogos, na previsão de demanda, no atendimento, na gestão de estoque, na criação de agentes e até na forma como as empresas começam a conversar com os próprios dados. Em alguns momentos, parecia que qualquer desafio operacional encontraria uma resposta na tecnologia.

Os números ajudam a entender por quê. Uma pesquisa da EMARKETER mostrou que o e-commerce brasileiro deve praticamente dobrar de tamanho até 2030. O consumidor compra em mais canais do que nunca, circula entre Mercado Livre, Shopee, Amazon e Shein com naturalidade e troca de plataforma sem pensar duas vezes.

Quanto mais o mercado cresce, maior fica a responsabilidade de operar bem.

Essa preocupação apareceu em praticamente todos os palcos. O painel que reuniu nove marketplaces colocou lado a lado empresas com modelos completamente diferentes. TikTok Shop, que ainda escreve seus primeiros capítulos no Brasil. Casas Bahia, com mais de sete décadas de história. Plataformas especializadas, varejistas tradicionais e novos entrantes.

Em vez de discutir quem teria mais audiência, a conversa girou em torno de outro tema: consistência. Ter o produto disponível quando o cliente procura. Entregar dentro do prazo prometido. Construir confiança suficiente para que ele volte, mesmo tendo dezenas de alternativas abertas no navegador.

A tecnologia apareceu como meio para alcançar esse objetivo.

Um dos cases mais interessantes mostrou isso de forma muito simples. Antes da automação, a equipe passava o dia acompanhando preços. Bastavam alguns minutos para perder a Buy Box e começar uma nova rodada de ajustes. Com a precificação dinâmica trabalhando 24 horas por dia, o preço continuou importante, mas deixou de consumir energia da operação. O resultado apresentado foi um crescimento superior a 30% nas vendas. Mais importante que o número foi a mudança de foco: a equipe passou a dedicar tempo à logística, ao estoque, ao Full, ao atendimento e às decisões que realmente exigem experiência.

Foi nesse contexto que uma das palestras mais leves do evento trouxe uma provocação difícil de ignorar.

Neli Pereira perguntou se as marcas brasileiras ainda têm borogodó.

A palavra arrancou risadas da plateia, mas carregava uma discussão séria. Em um mercado que automatiza quase tudo, ainda existe algo que depende de repertório, contexto e sensibilidade. O consumidor continua abandonando carrinhos por motivos que nenhum algoritmo resolve sozinho: uma comunicação distante, uma experiência confusa, um frete inesperado ou a sensação de que aquela marca simplesmente não conversa com ele.

Outra observação ficou ecoando ao longo do dia: talvez estejamos olhando demais para referências internacionais e de menos para os muitos Brasis que existem dentro do próprio país. O jeito de consumir muda entre regiões, cidades e culturas. Entender essas diferenças pode gerar mais resultado do que copiar uma tendência que funcionou do outro lado do mundo.

No fim das contas, tecnologia e comportamento não disputaram espaço durante o Fórum. Caminharam lado a lado.

Os algoritmos estão melhores. A automação está mais acessível. A inteligência artificial começa a fazer parte da rotina de qualquer operação relevante. Ao mesmo tempo, cresce a importância de compreender pessoas, interpretar contextos e transformar eficiência em uma experiência que faça sentido para quem compra.

Se nos permitem sair um pouco do conteúdo das palestras, talvez esse também tenha sido o borogodó do ANYTOOLS.

Este foi o primeiro Fórum em que levamos uma programação própria de conteúdo. Em vez de concentrar as conversas apenas em funcionalidades e produtos, escolhemos discutir estratégia, operação, comportamento e o futuro dos marketplaces.

A resposta veio rapidamente. As salas ficaram cheias, as conversas continuaram nos corredores e muita gente procurou o time para aprofundar temas que nem sequer estavam ligados a uma ferramenta específica.

Isso reforçou uma convicção que já fazia parte da nossa forma de trabalhar.

O diferencial de quem vive marketplaces todos os dias não está apenas em construir tecnologia. Está em conhecer a operação de perto, entender suas dores, conectar diferentes experiências e transformar esse conhecimento em estratégia.

Talvez esse seja, no fim das contas, o verdadeiro borogodó do ANYTOOLS. Não observar o mercado de longe. Estar ao lado de quem faz ele acontecer, todos os dias, criando infraestrutura base nas operações dos sellers e atuando como um hub de oportunidades.

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